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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Voos charters ou regulares!?

Roberto de Almeida Dultra, ex-presidente da Bito e do Rio CVB, e um dos mais tradicionais empresários do turismo receptivo brasileiro, enviou ao Portal PANROTAS artigo em que critica a iniciativa da Embratur de subsídio à captação de voos fretados internacionais. Segundo ele, destino de charter ganha a imagem de destino popular, baseado em preço, e afugenta os turistas de qualidade. Confira o artigo a seguir.

"O equívoco dos charters

Recente reportagem dizia que a Embratur recebeu oito propostas para o Programa de Apoio a Promoção Internacional de Voos Fretados, sete de Estados da região Nordeste (Sergipe, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Bahia) e uma da região Norte (Acre). Segundo Flavio Dino, presidente da Embratur “esse programa vai estimular o incremento da malha aérea do País, visando à diversificação das portas de entrada do turista estrangeiro”. Ainda de acordo com a mesma matéria, o programa vai disponibilizar, ao todo, R$ 8 milhões para auxiliar as secretarias de Turismo a divulgar voos internacionais para seus Estados. O programa prevê também aporte para auxilio à captação de novos voos internacionais.

Ao ler essa matéria veio-me logo à cabeça a pergunta que nós, experientes empresários brasileiros do turismo receptivo internacional, já fizemos tantas vezes: por que será que a Embratur – principal entidade brasileira responsável pela promoção do Brasil no Exterior –, insiste nessa estratégia equivocada de atração de voos fretados para incrementar o crescimento do turismo receptivo internacional? Qualquer profissional experiente do setor sabe que esses programas de voos fretados não agregam nada, por razões muito simples:

1) Como o Brasil não está entre os destinos mais baratos do mundo, a Embratur tem de interferir no equilíbrio natural da lei de oferta e procura, subsidiando e/ou assumindo riscos, para atrair o interesse de uma operadora estrangeira que monte e opere um programa de voo fretado para um destino brasileiro;

2) A empresa aérea será forçosamente uma empresa estrangeira de fretamento de aviões, até mesmo porque não temos empresas brasileiras de fretamento de aeronaves de grande porte, nem nossas companhias aéreas dispõem de aeronaves para esse tipo de fretamento – voos semanais durante vários meses, incluindo nossa temporada alta (verão brasileiro) quando nosso clima tropical mais atrai os turistas do hemisfério norte, que está no inverno;

3) Os hotéis “brasileiros” que recebem esses grupos de voos fretados quase sempre são hotéis do tipo resort “all-inclusive” (importante nesse tipo de pacote), de grupos hoteleiros estrangeiros, com os quais a operadora estrangeira do programa tem maior poder de negociação;
 
4) Os serviços no destino brasileiro ficam praticamente limitados aos traslados aeroporto-hotel-aeroporto, com a única adição, em alguns casos, de um passeio simples do tipo city tour. Ou seja, a rigor, a operadora do programa não precisa nem contratar os serviços de uma agência brasileira de turismo receptivo, pois, pela internet ou com o próprio guia coordenador do programa, pode contratar diretamente esse serviço de uma empresa local de ônibus, bem como os guias locais que forem necessários;

5) As empresas de ônibus e guias locais certamente concordarão com preços inferiores aos praticados aqui no Brasil com agências receptivas, por diversos motivos (ociosidade da frota, garantia de fluxo de caixa, possibilidade eventual da não emissão de nota fiscal ou recibo de autônomo, etc.);

6) Os turistas estrangeiros que compram esses pacotes são, em sua esmagadora maioria, pessoas de classe média baixa, para os quais o fator determinante da compra é o preço. Ou seja, turistas que estão mais interessados em descansar do que conhecer o destino (fazer turismo local) e/ou fazer compras.

Quem é que ganha com esse programa?

1) A operadora estrangeira ganha pela inclusão de mais um produto em seu portfólio; ganha a promoção gratuita do programa, subsidiada pela Embratur ou secretaria estadual de turismo; pode até ganhar também um subsidio da Embratur (ou secretaria estadual de turismo) para a garantia da realização dos voos fretados; e ganha um lucro razoável se o programa alcançar um bom nível de vendas;

2) A empresa estrangeira fretadora de aeronaves ganha pelo fretamento;

3) O grupo estrangeiro proprietário do hotel/resort ganha pelo menos a garantia de ocupação de 90 a 100 ou até mais apartamentos durante alguns meses, com todas as consequências positivas que isso traz para o hotel.

E o Brasil ganha o que?

1) O hotel “brasileiro” recebe apenas o necessário para justificar os custos operacionais, ou seja, não vai pagar um centavo sequer a mais de impostos por essa operação;
 
2) A empresa local de ônibus “ganha” fluxo de caixa, mas provavelmente também não vai pagar nenhum centavo a mais de impostos por essa operação;

3) Os poucos guias que porventura sejam contratados, idem;

4) Nenhum posto de trabalho será criado no Brasil graças a essa operação.

Chegamos então à conclusão de que a única ganhadora no Brasil é a Embratur, que poderá divulgar o fato de que seu Programa de Apoio à Promoção Internacional de Voos Fretados foi responsável pela vinda de mais alguns milhares de turistas estrangeiros, engordando a importante estatística, que, infelizmente, parece ser o único objetivo da Embratur! Será que vale a pena investir R$ 8 milhões só para engordar a estatística da Embratur?! Será que o Brasil é um país tão pobre e destituído de atrativos que precisa “comprar” turistas para aumentar o fluxo de turistas internacionais?!

Qualquer empresário ou técnico de turismo com alguma experiência sabe que um destino turístico deve ser “construído” a partir da atração dos ricos e famosos, do turismo de elite. Não se trata de elitismo ou discriminação, mas simplesmente de estratégia inteligente. Onde o rico e o famoso vai, todos querem ir, mas o inverso não é verdadeiro. Uma vez estabelecida a imagem de destino frequentado pelo turismo de elite, o próprio mercado se encarrega de oferecer condições para as classes de menor poder aquisitivo e o destino se desenvolve por completo. O inverso simplesmente não acontece – destinos baratos não conseguem atrair o turismo de elite e a pecha de destino barato acaba custando muito caro. Destinos que ficam conhecidos como destinos de charters acabam “ganhando” a pecha de destino barato!
 
Comentários: Dutra possui argumentos fortes pela não manutenção do apoio aos voos fretados, contudo muitos destinos brasileiros foram "descobertos" pelos voos fretados, necessários para a garantia de investimentos em alguns destes destinos. Porto Seguro, por exemplo, na Bahia, inicialmente era servida apenas por voos fretados e, depois de alguns anos, por voos regulares. Maceió também ganhou muito com os fretamentos tanto nacionais quanto internacionais. Sem dúvida, uma operação regular é muito mais vantajosa que uma operação charter. Porém atualmente a concentração operacional em poucas cidades, majoritariamente, no Rio de Janeiro e em São Paulo, dificultam o "nascimento" de novos destimos turísticos. Talvez a Embratur pudesse pensar em políticas de incentivo a voos regulares nos demais destinos turísticos brasileiros, de forma mais igualitária e democrática para a utilização dos recursos públicos.
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